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janeiro 10, 2005
Europa Vai Ter Plano de Acção para a Saúde Mental
Fonte: Público
A Europa vai ter um plano de acção para a saúde mental. Definindo as políticas e acções prioritárias neste domínio para os próximos anos, o documento vai ser assinado durante a Conferência de Helsínquia, que começa quarta-feira. E servirá de enquadramento ao futuro Plano Nacional de Saúde Mental, explica Maria João Heitor, responsável pelos Serviços de Psiquiatria e Saúde Mental na Direcção-Geral de Saúde, que, com o ministro e o director-geral da Saúde, integra a delegação portuguesa neste encontro.
É a primeira vez que a Organização Mundial de Saúde (OMS), em parceria com a Comissão Europeia e o Conselho da Europa, organiza um evento com esta abrangência - está prevista a presença de ministros e especialistas de 52 países. A necessidade de encontrar compromissos na resposta ao crescente peso dos problemas de saúde mental justifica-se. Apesar de se saber que as perturbações psiquiátricas afectam uma em cada quatro pessoas na Europa, grande parte da população com doenças mentais continua sem qualquer tipo de tratamento, até porque os serviços de saúde ainda estão pouco preparados para lidar com estes problemas, referem os documentos de apoio à conferência.
No encontro serão debatidas as experiências que têm conduzido aos melhores resultados e discutido o que deve ser evitado. Na lista das acções prioritárias surge a formação de médicos de clínica geral, o investimento nos serviços baseados na comunidade, a luta contra o "stress" no local de trabalho, entre outros. A redução do estigma e da discriminação associados à saúde mental, a organização de serviços para diferentes etapas da vida, a prevenção do suicídio são outras áreas a privilegiar.
Números preocupantes
Nos países europeus, continuam a ser grandes as assimetrias e as disparidades nas formas de lidar e dar resposta a estes problemas. Isto reflecte-se, desde logo, no dinheiro que cada país destina à saúde mental. Em média, na Europa, só 5,8 por cento dos gastos totais com saúde vão para esta área, mas há países que dedicam mais de 10 por cento do seu orçamento à saúde mental (caso, por exemplo, da Suécia), enquanto outros despendem menos de dois por cento. Em Portugal, estima-se que os gastos com saúde mental não ultrapassem os 2,3 por cento do orçamento total da saúde, nota, a propósito, Maria João Heitor.
A limitação dos orçamentos é evidente, quando se sabe que as perturbações neuropsiquiátricas são responsáveis por quase um quinto do total da chamada carga global de doença. As estimativas são preocupantes: na Europa, calcula-se que mais de 30 milhões de pessoas sofram de depressão e ansiedade, mais de 21 milhões têm problemas ligados ao álcool, cerca de sete milhões padecerão da doença de Alzheimer e outras demências e mais de quatro milhões, de esquizofrenia. E o mais grave é que parte considerável destas pessoas não é tratada.
Num inquérito feito na União Europeia em 2003, 90 por cento das pessoas supostamente afectadas por problemas de saúde mental não tinha tido qualquer tipo de tratamento nos últimos doze meses; e apenas 2,5 por cento tinha consultado um psiquiatra.
E este não é um problema exclusivo dos países mais pobres. Mesmo nos países desenvolvidos e com sistema de saúde bem organizados, estima-se que entre 44 e 70 por cento dos doentes não recebem tratamento nem consultam um médico. Por outro lado, apesar de estar mais do que provado que os serviços baseados na comunidade proporcionam mais qualidade de vida e satisfação, o tratamento institucional ainda predomina nalgumas partes da Europa. Num quarto dos países europeus, não há mesmo estruturas na comunidade. Nalguns países, 85 por cento do dinheiro atribuído à saúde mental é gasto na manutenção de instituições de grandes dimensões.
Problema de direitos
humanos
O custo dos problemas de saúde mental está estimado em três a quatro por cento do produto nacional bruto nos Estados-membros da União Europeia. Mas, para além da carga financeira que representa, este é ainda um problema de direitos humanos. Em alguns países, os doentes continuam a viver em instituições obsoletas, com pouco ou nenhum tratamento e a sofrer privações e negligência. Não será por acaso que as pessoas que vivem em hospitais psiquiátricos têm a maior taxa de mortalidade na Europa e a sua esperança de vida é 20 anos inferior à do resto da população.
Publicado por esta às janeiro 10, 2005 03:35 PM