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dezembro 02, 2004
Europa Receia Referendo Interno do PS Françês Sobre Constituição
Fonte: Público
A Europa dos 25 está hoje de olhos postos no Partido Socialista Francês (PSF) e no voto dos seus militantes sobre a Constituição europeia: um resultado negativo abriria um período de grandes incertezas e implicaria o risco de uma ruptura importante na construção europeia.
Apesar do referendo ser interno ao PSF, vozes externas à esquerda não escondem uma certa angústia: "O partido socialista tem uma grande responsabilidade no seu voto sobre a Constituição europeia", interveio ontem o primeiro-ministro (conservador), Jean-Pierre Raffarin. Exprimindo-se em Londres, no fim de um encontro com o seu homólogo britânico, Tony Blair, Raffarin acrescentou: "Esta escolha [dos militantes socialistas] não é apenas nacional, ela tem um impacto internacional".
O voto dos 120 mil militantes socialistas inscritos decorre hoje, com boletins secretos, nas sedes do partido, entre as 18h e as 22h. E apesar das últimas sondagens indicarem que cerca de 62 por cento dos simpatizantes são a favor do "sim", o campo do "não" frisa que os simpatizantes "não são todos militantes", e que junto destes últimos, o resultado seria muito incerto.
Se este voto do PSF preocupa tanto os outros países europeus, é porque a França organiza em 2005 um referendo de ratificação da Constituição. E se a esquerda socialista, principal força de oposição, fizesse campanha pelo "não", conduzindo a um resultado negativo a nível nacional, toda a construção europeia ficaria em perigo. "Há até um risco de desagregação do que já foi feito", frisava Mário Soares em Paris, na segunda-feira, vindo dar o seu apoio ao campo do "sim".
Fabius "versus" Hollande
O drama político começou em Setembro último, quando o antigo primeiro-ministro socialista, Laurent Fabius, criticando as orientações sociais e económicas do projecto para a lei fundamental, tomou partido pelo "não". O primeiro secretário do PSF, François Hollande, que se comprometera, seis meses antes, a consultar os militantes por referendo nas "decisões essenciais" do partido, anuncia então a organização de um voto interno. Muito depressa, o partido cinde-se em dois. Laurent Fabius tem o apoio da sua corrente (poderosa) dentro do PSF. Personalidades das alas mais à esquerda do partido, como o antigo primeiro secretário Henri Emmanuelli, juntam-se ao campo do "não".
François Hollande tenta assumir o comando do campo do "sim" mas as suas pretensões esbarram em fortes personalidades do PSF, como os antigos ministros Jack Lang e Dominique Strauss-Kahn, que vêem nesta campanha uma ocasião importante para se posicionarem na corrida à investidura do partido para as eleições presidenciais de 2007. Os comentadores franceses frisam, de resto, que terão sido as próprias ambições presidenciais de Laurent Fabius a determinar a sua escolha do "não": se o seu campo vencer, Fabius seria o candidato "natural" do PSF ao Eliseu dentro de dois anos. Mas era sem contar com um imprevisto.
Em meados de Novembro, o antigo primeiro-ministro socialista Lionel Jospin, saiu da sua reforma antecipada da política, escolhida depois da sua derrota nas presidenciais de 2002, para tomar firmemente posição a favor do "sim". E desde então, os simpatizantes do PSF indicam nas sondagens que Jospin é o preferido deles para candidato presidencial em 2007.
No entanto, o voto dos militantes ignora estas ambições. "A Europa sempre deu azo a debates acesos entre socialistas", reconheceu Dominique Strauss-Kahn durante a campanha. "Nunca foi fácil", concordou Jean-Louis Bianco, antigo secretário-geral do Eliseu, explicando: "Toda a questão reside nas arbitragens entre as realidades e as nossas aspirações a uma Europa política e social". E o diário "Le Monde" recordava na sua edição de ontem que "a esquerda sempre conheceu o receio de ser desapossado do seu livre arbítrio a proveito de uma Europa liberal e supranacional". A tal ponto que um primeiro-ministro socialista célebre, Pierre Mendès-France, tinha dito "não" ao Tratado de Roma, em 1957. Foi, no entanto, o governo socialista seguinte, o de Guy Mollet, que assinou o Tratado fundador da futura União Europeia.
Publicado por esta às dezembro 2, 2004 10:21 AM