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novembro 24, 2004
Tolerância europeia
[Fonte: jornal de notícias]
Tolerância é o carácter ou atitude de quem aceita a diferença. Revela o respeito pela liberdade dos outros, pelas suas ideias, palavras e actos, mesmo quando não se concorda com elas. É saber admitir aquilo que entendemos serem os erros dos outros como aquilo que são capazes de fazer, de acordo com o seu nível evolutivo.
É algo que o indivíduo pode desenvolver ao longo da sua existência física, mas também que a Humanidade vem conquistando ao longo dos tempos. Durante os primeiros séculos da nossa era, os cristãos foram perseguidos. Contudo, com o imperador Teodósio (380), o cristianismo passou a ser a única religião admitida, sendo o paganismo perseguido.
A intolerância religiosa que caracterizou a Europa no tempo das Cruzadas e da Inquisição foi-se esbatendo até ao século XIX. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada pela ONU em 1948, implementou o culto à liberdade de pensamento e à liberdade religiosa, progressivamente adoptados pelas constituições políticas da generalidade dos países europeus.
No início do século XXI, a Europa e o Mundo são de novo postos à prova no seu percurso de conquista da tolerância. O radicalismo de uma minoria intransigente de islâmicos e a resposta, também ela radical, dos governantes norte-americanos criam um novo cenário de intolerância, reforçada pela dificuldade dos muçulmanos pacifistas em denunciarem os radicais e no apoio, pela reeleição, da maioria dos norte-americanos aos seus governantes.
O atentado de Madrid e os recentes acontecimentos na Holanda, após a exibição do controverso e insultuoso documentário "Submissão" e do assassínio do seu realizador, alertam os europeus para a necessidade de repensarem a sua postura. A tentativa de imposição dos seus valores, por uma minoria de imigrantes muçulmanos, que desejam usufruir dos benefícios da civilização europeia, obriga a analisar em profundidade a capacidade de tolerância de uma sociedade multicultural, perante as suas faixas extremistas e aqueles que, do exterior, trazem mais extremismos.
Colocam-se cada vez mais as questões de busca equilibrada de soluções para o uso de insígnias religiosas que pressionem ou perturbem os circunstantes. São grandes as dúvidas quanto à aceitação da Turquia como membro da União Europeia, pela absorção de uma enorme comunidade muçulmana, com um ritmo de expansão demográfica muito superior ao dos europeus.
A cultura da tolerância deve prever o controlo e a eventual rejeição dos militantemente intolerantes, que se disponham ao uso de meios destruidores para impor os seus pontos de vista. Ou seja, a submissão dos tolerantes deverá ser racionalmente evitada, sob pena de frutificação de novas formas de intolerância.
A força do exemplo, a conquista pela educação e reeducação, a sensibilização por uma apropriada informação terão, naturalmente, uma importância primordial. Mas talvez se torne necessário demorar a obtenção de vistos de residência e, sobretudo, a aquisição de nacionalidade àqueles que pretendam impor os seus valores em terra alheia. Infelizmente, é necessário, ainda, o reforço das medidas de prevenção e luta contra todas as formas de racismo e de terrorismo.
Os europeus estão à prova. Mas têm agora uma grande oportunidade de liderar o processo evolutivo relativo à tolerância. E o Mundo precisa que a Europa lhe dê um bom exemplo.
Claro que as atenções se colocam nos governantes europeus, mas eles precisam do apoio do comum dos cidadãos, no controlo dos seus ímpetos mais primários, pela assunção de uma cultura de respeito, tolerância e amor ao próximo. No seu dia-a-dia, como nas grandes decisões nacionais e europeias, que se pretendem de grande discernimento, a bem da Humanidade.
Publicado por esta às novembro 24, 2004 01:45 PM