« Durão aguarda novo comissário italiano para apresentar equipa | Entrada | Comissão Europeia preocupada com saúde de Arafat »
novembro 04, 2004
Os Estados europeus e o estado do nosso
Fonte: Diário Digital
Opinião - Portuguesíades
João de Mendia
Está a haver neste momento, em França, uma importante discussão sobre o futuro da Europa, condicionado que isso está, não tanto pelo alargamento do “clube”, pelo tratado da sua constituição ou pela velocidade com que a Turquia entrará, mas mais pelo que pode significar para o Ocidente em geral, e para a Europa em especial, a vitória de Kerry nas eleições americanas. Uma das últimas decisões de Clinton em associar o Partido Democrata à Internacional Socialista, fez com que funcionassem determinadas obediências da Administração americana, o que corresponde a dizer que passaram a existir forças marxistas na política americana, coisa que até hoje é mesmo proibido.
Em Itália, discute-se a possível crise de governo criada pelos euro-deputados espanhóis com a facciosa iniciativa que tomaram em recusar o Comissário para a justiça, o italiano Rocco Buttiglione, apenas, e só, pelo simples facto deste ser Católico. Admite-se mesmo a possibilidade de se assistir a um abanão no governo de Berlusconi em consequência desta atitude do PE que, se tivesse sido do lado dito conservador, não haveria imprensa que não saísse enraivecida a achar que era antidemocrático. Assiste-se ainda, em Roma, à assinatura do tratado europeu que, como se sabe, propõe que a Europa deixe de ter países e passe a ter meras regiões administradas por um directório sedeado, oficialmente, em Bruxelas, mesmo sem que antes tenha sido ratificado pelas populações das nações. É efectivamente este o teor, a letra e sobretudo o espírito deste documento que está a ser imposto pelos federalistas com uma pressão de contornos bolchevistas.
Em Espanha, joga-se o futuro da estabilidade da futura Comissão Europeia, com a contestação primária pelos deputados espanhóis ao candidato a comissário, Buttiglione, escolhido pelo putativo presidente português e recomendado, por sua vez, pelo socialista, e comissário português, António Vitorino. Não funcionaram, como nunca funcionam, as solidariedades políticas, nem o facto do presidente ser português, nem a recomendação ter sido feita por um par da mesma família política do governo espanhol, nem ainda o bom ambiente que se diz existir depois da cimeira da Galiza entre Lopes e Sapateiro. Mais uma vez se prova, como sempre disse Franco Nogueira, que entre países não há amizades. Há interesses. E julgar que se ganha seja o que for por determinado país se dizer amigo, o que se passa, na realidade, é ter-se perdido e ter ganho o tal país que nos convenceu disso. É antigo o fenómeno.
Em Inglaterra ferve a opinião pública com a existência de escolas de terrorismo islâmico dentro das próprias mesquitas em Londres, e joga-se o futuro das relações com os Estados Unidos, relacionado que isso está com o envio de mais militares para o Iraque, o que interfere com toda a Europa. Para além de se discutir, com uma razoável profundidade, os referendos, tanto à constituição europeia como à própria moeda única. Está ainda em discussão neste Reino o modelo de administração dos emigrantes, tanto para os que já lá estão como para os que lá chegam todos os dias por vias de enquadramentos criminosos, o que afecta não só Inglaterra, como o resto da Europa.
Na Alemanha, ocupa-se o espaço de todos os jornais com as dificuldades que continuam a surgir com os transcendentes problemas que ainda representa a reunificação, para além de se estar a digerir não muito bem a questão da integração da comunidade islâmica, turcos na sua grande maioria, que já votam, muitos deles. Estão ainda em discussão as divisões de fundo nos projectos políticos das forças em presença para as próximas eleições, forças estas que vão definir, também, o futuro da Europa e, consequentemente, o nosso. Está ainda por resolver o enorme entrave à entrada de capitais estrangeiros dados os desmesurados encargos que representa ainda dar trabalho a alguém na Alemanha, o que faz com que toda a economia europeia não arranque.
A população da Noruega, e a imprensa que a informa, estão a dar a maior das atenções às flutuações do preço do petróleo, de que é dos maiores produtores do mundo, como se sabe, tendo isto a ver com os importantíssimos presente e futuro deste país. Não que isso tenha muito a ver com questões de sobrevivência, como acontece com os árabes que quase só têm petróleo, porque o produto da sua exploração neste país vai inteirinho integrar um fundo de reserva, que, por sua vez, faz as suas aplicações financeiras de forma autónoma. Não conta como receita para as despesas do Estado. Estas têm as receitas provenientes da normal actividade económica, que são suficientes e administradas de forma a proporcionar aos noruegueses um dos melhore níveis de vida do mundo, sem necessitar de beliscar as reservas provenientes do crude. Imagine-se a dimensão deste fundo que, caso estivesse na EU, estaria com certeza a financiar a agricultura francesa. Mas não está, felizmente para eles.
Todas estas discussões têm a ver com a preocupação de se dar à Europa um de dois destinos: o socialista, materialista, despesista, reaccionário, ateu; ou o outro, de contornos eventualmente mais aceitáveis, com o qual a recuperação cívica, moral e material ainda tem algumas hipóteses. Está a ser, por tudo isto, um combate ao nível da sobrevivência de um destes modelos. O que perder, em princípio, não ganhará mais.
Contudo, em Portugal, os midea embandeiram em arco, em exclusivo, repito, em exclusivo, com o lamaçal da promiscuidade do que se diz ser o futebol; com um “big bruther” com meia dúzia de primatas mentecaptos a vegetar numa jaula de loucos onde o mais louco é que ganha; com a pressão que se fez ou não fez a um comentador político de uma antena de TV privada, Marcelo, com graves desequilíbrios emocionais, défices de carácter e reconhecidos complexos pessoais por resolver, que prefere a irresponsabilidade de colocar o socialismo no poder por mais 15 anos, apenas, e só, para se vingar de alguém e trepar na vida. E isto por ter sido posto na ordem quem usava e abusava de um espaço de antena, onde era pago para comentar, sim senhor, mas não, tacitamente, para morder a mão que lhe dava o sustento. Que, ainda por cima, não era tão pouco como isso. O povinho, para estes casos, tem nomes: traição e desonestidade.
A nossa imprensa acha, ainda, que este governo não pode deixar de ter como principal preocupação não se dedicar a mais nada senão a coisas de jaez semelhante. E tudo isto apesar de Silva Lopes alertar para o estado caótico das relações dos vários poderes em Portugal, do presidente das PME dizer que a situação no nosso país é muito mais grave do que se pensa, de Cavaco Silva achar que o país está de pantanas e do Cardeal Patriarca alertar para o perigo do materialismo exacerbado e da relativização de tudo, situação que se deve a quem Marcelo quer, agora, ver a mandar em Portugal. Democracia? Preocupações? Votar? Para que?
Publicado por esta às novembro 4, 2004 05:17 PM