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novembro 16, 2004
Os duelos de Barroso
Fonte : Visao
Enquanto a sua equipa ganha forma, o presidente designado da Comissão enfrenta o Parlamento Europeu
Desde há duas semanas que, logo pela manhã, ao pegar na revista da Imprensa europeia preparada pelos serviços da Comissão, José Manuel Barroso é bombardeado com notícias e comentários sobre RoccoBottiglione . Nem sempre desfavoráveis. Esta segunda-feira, o cardeal Renato RaffaeleMartino , presidente da Comissão Justiça e Paz, disse, numa entrevista à televisão, que a campanha contra o comissário italiano «parece uma nova Inquisição» anticatólica. Bottiglione , designado para suceder a Vitorino na pasta da Justiça e Assuntos Internos, desencadeou uma tempestade política por ter declarado, na audição parlamentar, que a homossexualidade é um «pecado» e que o casamento «existe para permitir às mulheres terem filhos e serem protegidas por um homem». Numa decisão inédita, a Comissão das Liberdades Cívicas do Parlamento Europeu acabou não só por recusar a nomeação do democrata-cristãoBottiglione , amigo de João Paulo II, para o referido pelouro, como também para comissário europeu. Através de uma das suas porta--vozes, Barroso reafirmou a sua confiança no italiano, mas fê-lo em termos tais que levaram a uma radicalização dos grupos Socialista, Liberal e Verde, que contestam a escolha do ainda ministro de SilvioBerlusconi . O presidente do Parlamento Europeu, na última segunda-feira, em Viena, lembrou a Barroso que, quando foi eleito, afirmou que estaria sempre atento ao que o hemiciclo tivesse para lhe dizer. «O PE disse-lhe algo e está à espera da sua resposta», afirmou o socialista espanhol JosepBorrell . A resposta pode chegar hoje, quinta-feira, 21, numa reunião com os eurodeputados . Os votos dos 268 membros do Grupo do Partido Popular Europeu não são suficientes para fazer passar a equipa de Barroso quando, no próximo dia 27, a nova Comissão se sujeitar à votação global de aprovação pelo PE. Entretanto, na semana transacta, o alemão MartinSchultz , presidente do Grupo Socialista (200 assentos) reclamou que RoccoBottiglione mude de pelouro. Caso contrário votará contra a investidura. Esta é, de resto, também a posição de António Costa, chefe de fila dos socialistas portugueses. Neste quadro, os 88 liberais poderão ter na mão a chave da aprovação da futura Comissão. De notar que o PE não pode recusar um comissário, individualmente.
José Manuel Barroso deverá ter concluí-do , ontem à tarde, em Berlim, uma ronda por capitais europeias, onde se encontrou com os líderes dos 25. Antes, e já esta semana , esteve na Irlanda, Letónia e Polónia. O caso Bottiglione teve o condão de passar para segundo plano outros comissários que também suscitaram reservas do PE, designadamente a holandesa NellyKroes , a nova titular da Concorrência, por eventuais conflitos de interesses, dado ser uma personalidade muito ligada ao mundo dos negócios. Segundo o Tratado de Nice , a distribuição de responsabilidades no interior da Comissão é da competência do seu presidente. Assim, se Barroso assim entender, pode redistribuir os pelouros. Mas a recusa pura e simples do nome de Bottiglione , uma hipótese que parece completamente afastada, exigiria o acordo do primeiro-ministro italiano, SilvioBerlusconi .
Compatriotas
Segundo uma regra estabelecida pelo próprio Barroso, cada comissário tem que ter, no seu gabinete, elementos de três nacionalidades diferentes. O presidente não foge à regra, mas, como já acontecia com Romano Prodi , o seu círculo mais próximo é, em certa medida, preenchido por colaboradores da mesma nacionalidade. A começar pelo chefe de gabinete, João Vale de Almeida, 47 anos, que se tornou funcionário europeu ainda antes da adesão de Portugal, em 1986. Ainda em Bruxelas, pescou para conselheiro especial António Cabral, um dos pesos-pesados na estrutura da Comissão, na qualidade de director-geral adjunto dos Assuntos Económicos e Financeiros. Para o gabinete de Barroso também transitam Pedro Cymbron (da secretaria-geral) e Rita Castro (até agora no secretariado do gabinete de Vitorino). Figura de peso na Comissão Barroso vai ser Carlos Tavares, ex-ministro da Economia, de quem se chegou a falar para ministro das Finanças. Tavares será presidente do Grupo de Conselheiros Políticos ( GOPA-GroupofPolicyAdvisers ), uma célula de prospectiva que reporta directamente ao presidente. De Lisboa, Barroso fez-se acompanhar por Leonor Ribeiro da Silva, sua porta-voz como ministro dos Negócios Estrangeiros e primeiro-ministro, e Inês Sérvulo Correia, sua assistente na São Caetano, sede do PSD, e em São Bento. Há ainda um elemento que vem de fora, Fernando Andresen Guimarães, funcionário da ONU em Nova Iorque. [# FimNoticia ]
Publicado por esta às novembro 16, 2004 04:37 PM