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novembro 09, 2004
Euro Já Esteve por Três Vezes Tão Forte como Actualmente
Fonte: Público
Os máximos atingidos ontem pelo euro face ao dólar colocam a paridade entre as duas divisas a níveis semelhantes aos registados em 1989, 1993 e 1996, de acordo com cálculos do PÚBLICO a partir de dados do Banco de Portugal (ver gráfico). A moeda europeia atingiu ontem os 1,2987 dólares, o valor mais alto desde a sua criação, em 1999, o que equivale a 154,371 escudos, considerando a taxa de câmbio de 200,482 escudos por euro fixada aquando do lançamento do euro. Nos últimos quinze anos, o valor mais baixo do dólar face ao escudo registou-se em 1992, quando eram necessários apenas 121,7 escudos por cada dólar. Considerando a referida taxa de câmbio de 200,482 escudos por euro, os 121,7 escudos por cada dólar equivaleriam em 1992 a 1,6473 dólares por cada euro. Ou seja, o dólar ainda terá de continuar a desvalorizar-se face ao euro para atingir os mínimos da década de noventa. Aliás, não será por acaso que os principais comentários sobre a evolução da cotação euro/dólar tenham mais a ver com a grande volatilidade entre as duas moedas e menos com o valor actual da taxa de câmbio. Ontem, Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu (BCE) alertou mesmo para os perigos dos "movimentos bruscos" das taxas de câmbio entre o euro e o dólar, considerando-os indesejáveis para o crescimento sustentado da "eurolândia" - o euro passou de 0,8252 em Outubro de 2000 para próximo de 1,3 dólares actualmente. Na sequência das declarações do banqueiro, a moeda única acabou por corrigir em baixa e às 17 horas de Lisboa o euro era negociado a 1,2938 dólares, abaixo dos 1,2941 dólares atingidos sexta-feira passada.
Os fluxos cambiais entre o euro e o dólar são "bruscos" e não são bem vindos do ponto de vista" da Europa, afirmou Jean-Claude Trichet, durante a conferência de imprensa que se seguiu ao encontro dos governadores dos bancos centrais dos dez países mais industrializados do mundo G10, que este fim-de-semana decorreu em Basileia. A subida continua do euro torna os produtos fabricados na Zona Euro mais caros nos mercados internacionais, sucedendo o contrário com os norte-americanos. Contudo, quinta-feira passada Gerhard Schroeder, primeiro-ministro da Alemanha, a maior economia da Zona euro, veio desdramatizar a actual situação considerando que as taxas de câmbio ainda "não são dramáticas", pois apesar do euro forte as exportações alemãs têm dado provas de resistir de "forma brilhante".
Portugal pouco afectado
"Para Portugal a minha primeira reacção é dizer que não deveriam ser muito importantes (subidas bruscas nas taxas de câmbio), pois no que diz respeito às exportações e às importações, os nossos principais parceiros encontram-se na zona Euro", disse ao PÚBLICO Miguel Beleza, ex-ministro das Finanças de Cavaco Silva. Agora, "para a Europa e no que toca ainda aos nossos principais parceiros a apreciação do euro tem efeitos prejudiciais, porque afecta negativamente a cmpetitividade desses países", acrescentou o actual consultor do grupo Millennium bcp. Miguel Beleza evidenciou ainda que "as variações bruscas das taxas de câmbio, estão em regra associadas a variações bruscas nas taxas de juro, o que dificulta o crescimento da economia".
"O alerta de Trichet sobre os movimentos cambiais bruscos, parece-me acertado, mas estou convencido de que nos próximos tempos provavelmente os fluxos cambiais deverão ir no sentido de uma reaproximação do dólar à paridade da moeda única", antecipa o economista do Grupo Mello, António Nogueira Leite. "Esta é a tendência de médio prazo." O ex-secretário de Estado das Finanças de Sousa Franco e ex-presidente da Bolsa, considera que as "divergências são apenas fruto de instabilidade".
Já Manuel Pinho, considerado o "novo guru" do Partido Socialista da "era José Socrates" para as áreas económicas/financeiras, afirma que "a desvalorização do dólar é negativa para a economia europeia, mas tem a vantagem de tornar as importações de petróleo mais baratas". Segundo Manuel Pinho a "raiz" da apreciação do dólar se deve ao "fenómenal défice orçamental americano", que se situa já à volta dos cinco por cento do PIB, e ao "endividamento das familias. Questões que não ajudam a inverter a actual situação (dólar fraco, euro forte). A resolução "durável" do problema passa pelo reequilibrio do défice orçamental dos EUA.
De acordo com analistas internacionais citados pelas agências internacionais, os resultados das últimas eleições americanas "abriram as vias para uma nova etapa no declíneo do dólar", mesmo se oficialmente o reeleito presidente dos EUA defende uma política do "dólar forte". Jim O'Neill, economista da Goldman Sachs, prevê mesmo que o euro poderá atingir em breve níveis entre os 1,33 e os 1,36 dólares.
Publicado por esta às novembro 9, 2004 02:34 PM