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novembro 12, 2004

«Crise orçamental cada vez mais difícil de resolver»

«Crise orçamental cada vez mais difícil de resolver»


Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, afirma que Orçamento para 2005 aumenta dívida pública e é «insuficiente» para reduzir défice. Critica ainda a educação, falando mesmo «num desastre»

O governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, considerou hoje que a proposta de Orçamento do Estado para 2005 (OE 2005) aumenta a dívida pública e é «insuficiente» para reduzir o défice.

«Portugal deixou agravar uma crise orçamental, que se revela cada vez mais difícil de resolver», apontou Vítor Constâncio, durante o discurso que proferiu no I Congresso da Democracia Portuguesa, promovido pela Associação 25 de Abril.

De acordo com o governador do Banco de Portugal, «a política orçamental do país tem de ser orientada de forma a exercer uma função estabilizadora do ciclo económico».

No entanto, segundo Constâncio, os sucessivos poderes políticos «têm tido comportamentos contrários» a essa linha, dando como exemplo a proposta de Orçamento do Estado para 2005.

«O Orçamento actual é insuficiente para assegurar qualquer progresso na redução do défice estrutural», enquanto «a dívida pública ultrapassará os 60 por cento» - valor limite imposto pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento da União Europeia.

Além dos avisos sobre a ausência de redução do défice estrutural do país e da subida da dívida pública, o governador do Banco de Portugal alertou para os riscos do aumento dos custos unitários do trabalho, «aumento que tem sido superior à média dos países da União Europeia».

Vítor Constâncio criticou ainda a situação da educação em Portugal, falando mesmo «em desastre».

Segundo o governador do Banco de Portugal, a percentagem do Produto Interno Bruto (PIB) destinado ao sector da educação é superior ao da média dos países europeus, razão pela qual as deficiências se explicam com o factor «ineficiência».

«Na educação, há uma verdadeira angústia, porque os seus problemas poderão não ser resolvidos a prazo», apontou.

O governador do Banco de Portugal criticou também o comportamento dos agentes económicos e dos responsáveis políticos portugueses em áreas como as da inovação e investimento em conhecimento.

De acordo com Constâncio, «73 por cento dos industriais portugueses têm fraca utilização de tecnologias de ponta» e «no investimento em conhecimento Portugal está na cauda entre os países da OCDE».

Na sua intervenção, depois de aludir aos baixos níveis de produtividade existentes em Portugal, o governador do Banco de Portugal negou ainda que o modelo liberal da economia seja a única via capaz de contribuir para o desenvolvimento dos países.

Nesse contexto, Constâncio referiu que, «entre os dez países mais competitivos do mundo, seis deles têm poderosos estados de Providência», citando o caso finlandês.

Outro dos participantes no congresso, o secretário-geral da CGTP-IN, Carvalho da Silva, afirmou que «o discurso da inovação e do conhecimento tem muitas vezes implícito a desvalorização da generalidade do sector produtivo» nacional.

«Há quanto tempo não há um projecto produtivo neste país», perguntou Carvalho da Silva, para indicar que, em contrapartida, estão a crescer «a actividade especulativa e os incentivos à economia clandestina».

«Temos insegurança e uma crescente precaridade no emprego por causa da ganância do lucro», sustentou o dirigente sindical, que ainda se insurgiu contra «as reformas elevadíssimas e as enormes regalias proporcionadas aos gestores públicos e privados».

«São depois estas mesmas pessoas que dizem não haver dinheiro para aumentar salários e para melhorar as prestações sociais», apontou.

Carvalho da Silva recusou ainda que os valores da esquerda se encontrem «derrotados ou, em contrapartida, se devam limitar à mera gestão do capitalismo».

«Essas visões têm de ser combatidas. Não chegamos ao fim da História», acrescentou.


Publicado por esta às novembro 12, 2004 01:17 PM