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outubro 25, 2004

Ver e ser visto

[Fonte: Visão]

A 59ª Assembleia Geral das Nações Unidas deu ao primeiro-ministro português a oportunidade de conhecer pessoalmente muitos dos seus pares de todo o mundo. Pedro Santana Lopes não podia ter escolhido melhor companhia para trazer a Nova Iorque. O ministro dos Negócios Estrangeiros, António Monteiro, foi mais do que uma «bengala», durante a estada do chefe do Governo português naquela cidade norte-americana. Foi um autêntico cicerone. No edifício das Nações Unidas – um bunker com segurança apertada, onde se movem milhares de pessoas durante as reuniões da Assembleia Geral – António Monteiro movimenta-se com à-vontade, trata alguns polícias pelo nome e estende a mão a KofiAnnan , quando, por acaso, se cruzam. A sua postura de anfitrião nos cinco dias da visita, de 19 a 23 de Setembro, contrastou com a discrição do primeiro--ministro. Mas o objectivo de Santana Lopes também foi cumprido: ver outros líderes mundiais, ser visto, e, a caminho, deixar claro que o Executivo de Lisboa mudou, mas os compromissos continuam a ser os mesmos e serão cumpridos. A 59ª Assembleia Geral da ONU era uma oportunidade para o primeiro-ministro português, em funções desde 17 de Julho, se sentar entre os grandes. Com pouca experiência na área da diplomacia e das relações internacionais – ao contrário do seu antecessor –, Santana ensaiou, em Nova Iorque, as primeiras linhas daquele que será o seu discurso sobre política externa. Falou de fome e de pobreza, anunciou o aumento das verbas para o desenvolvimento, mostrou que o Governo está preocupado com a questão do Médio Oriente, teceu comentários sobre a data formal para o fim da missão da GNR portuguesa no Iraque (ver texto sobre GNR) e admitiu o princípio do «acolhimento positivo» da Turquia na UE. Entre reuniões bilaterais, o primeiro-ministro ainda teve tempo para passear no Central Park e impor a insígnia da Ordem do Infante ao ex-embaixador Franco Carlucci , uma condecoração que já lhe tinha sido atribuída por Durão Barroso, em Novembro. Santana, concentrado nas questões internacionais, só não teve espaço, na agenda, para um encontro com a comunidade portuguesa, em Newark . A omissão foi notada pelos emigrantes que esperavam poder contar com a sua presença numa festa marcada para o final da tarde de domingo, 19, dia em que a comitiva aterrou em solo americano. A primeira intervenção de Pedro Santana Lopes em Nova Iorque, no âmbito de uma reunião de líderes, aconteceu no dia 20, num encontro patrocinado por Lula da Silva e dedicado a debater acções de combate à fome e pobreza. Falando entre os presidentes do Senegal e do Fundo Monetário Internacional, o chefe do Executivo dirigiu-se à assembleia em português (os seus antecessores não costumavam fazê-lo), aproveitando os dois minutos que lhe foram atribuídos. A propósito dos que passam fome, citou o poeta Fernando Pessoa. «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Não sei se todos os milhares que estão quase a morrer de fome, e que, porventura, sabem que nos reunimos aqui, acreditam em Deus. Mas querem, certamente, que a obra nasça», disse, numa intervenção improvisada, demonstrando, mais uma vez, que prefere o improviso, seja em S. Bento seja nas Nações Unidas. E foi assim que anunciou, perante uma assembleia de 57 líderes mundiais, que, no próximo ano, Portugal aumentará em 50% a participação no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e no Programa Alimentar Contra a Fome. A verba actual é de 1,47 milhões de euros. Uma ajuda monetária que muitos preferiam ver concretizada em materiais, estradas, casas, escolas ou investimentos. «Terminemos com a caridade», disse o representante do Paraguai, «troquemo-la por humanismo.» Esta foi, aliás, a tónica de um pequeno-almoço de trabalho em que Santana Lopes se reuniu, logo no primeiro dia, com Joaquim Chissano . Ficou claro, no resumo que o Presidente de Moçambique fez à imprensa, no final do encontro, que também este país africano quer pôr ponto final na cooperação por caridade para começar a ser visto como parceiro económico. Ao todo, Pedro Santana Lopes e António Monteiro tiveram mais de 30 reuniões ao mais alto nível, com parceiros da ONU, cada uma demorando cerca de 20 minutos. Foram com a Palestina, Israel, Iraque, Chile, Turquia, Rússia, Marrocos, Angola e Moçambique alguns dos encontros bilaterais que mereceram mais destaque, quer por motivos relacionados com assuntos pendentes quer por questões que se prendem com a actualidade nacional ou internacional. Neste contexto, o contacto com o primeiro-ministro do Iraque, JladAllawi , na terça-feira, 21, terá sido particularmente relevante. De acordo com fonte diplomática, este ano Portugal recebeu mais pedidos de encontro que o habitual. Um das razões para ser tão requisitado pode residir no facto de Durão Barroso estar na presidência da União Europeia, um cargo considerado influente. Mas Santana Lopes explica a importância desta intensa actividade bilateral com «o momento de viragem que se vive actualmente, decisivo para a história do mundo». Outras reuniões, como as que juntaram o primeiro-ministro português e o Presidente de São Vicente e Grenadinas ou a Presidente da Finlândia, não tiveram o mesmo destaque, mas foram simbólicas. No primeiro exemplo, dá-se o caso de Ralph Gonçalves ser luso-descendente , da Madeira, e querer, por essa razão, apertar a mão e contar a sua história a Santana Lopes. No segundo, coloca-se uma questão de paridade que não pode ser esquecida: Tarja Halonen foi a única mulher que se encontrou com o chefe do Governo português – as Nações Unidas são ainda um mundo de homens. À margem das reuniões bilaterais e da «cimeira da fome», Santana Lopes participou na abertura da Assembleia Geral da ONU, na manhã de dia 21, e terá discursado ontem à tarde, dia 22, no debate geral. Em apenas duas ocasiões, o primeiro--ministro e GeorgeBush estiveram na mesma sala, primeiro na sessão de abertura da Assembleia Geral e, mais tarde, no mesmo dia, na recepção oferecida pelo Presidente dos Estados Unidos da América, no Hotel WaldorfAstoria , a todos os líderes mundiais que se deslocaram a Nova Iorque. Durante os primeiros dias da 59ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na cidade que nunca dorme – como também é conhecida Nova Iorque – concentraram-se mais governantes e polícias por metro quadrado do que em qualquer outra. Várias ruas permaneceram fechadas ao trânsito e os nova-iorquinos viram-se obrigados a limitar as suas deslocações de automóvel ao mínimo indispensável. Nas rádios e nas televisões, anunciava-se que o melhor a fazer para andar de um sítio para o outro, em Manhattan , era utilizar a velha linha de metropolitano. O rude golpe que UsamabinLaden perpetrou contra a América continua tão presente que as autoridades mostraram muita resistência a confiar nos seguranças que os políticos trouxeram dos seus próprios países. Santana Lopes, por exemplo, viu-se reduzido a dois guarda-costas, no interior do edifício das Nações Unidas. O acesso a homens com armas foi condicionado ao mínimo indispensável. Apesar da azáfama e da tentação securitária da ONU, o primeiro-ministro português ainda conseguiu passear, tranquilamente, pelo Central Park , na manhã a seguir à chegada. Neste que foi um dos momentos mais descontraídos da estada, acompanharam-no alguns membros seu staff. Nos dias seguintes, era vê-lo agarrado ao telefone, sempre atarefado. Em Portugal, Sampaio ameaçava vetar as taxas moderadoras da Saúde e os concursos dos professores transformavam-se num dos primeiros grandes berbicachos deste Executivo.

Publicado por esta às outubro 25, 2004 12:26 PM