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outubro 28, 2004
Os Islamistas Turcos São Os Mais Fervorosos Adeptos da Adesão à UE
Fonte: Público
O reforço da sociedade civil, em oposição à pesada "herança kemalista", é o aspecto mais significativo da recente evolução política na Turquia. Um processo lento, no qual a perspectiva de adesão à UE está a originar uma dinâmica interna inimaginável há apenas três anos. Por Pedro Caldeira Rodrigues
Ragip Duran, 50 anos, jornalista turco, antigo professor na universidade de Galatasaray, correspondente de diversos "media" internacionais, foi premiado pela defesa da liberdade de expressão após ter cumprido sete meses e meio de prisão, entre 1998 e 1999, por "delito de opinião". Conhecedor da realidade turca e da "questão curda" esteve esta semana em Lisboa onde participou na conferência "As Novas Fronteiras da Europa" promovidas pela Gulbenkian.
PÚBLICO - A abordagem do Estado turco face a religião ainda assenta na herança do regime republicano kemalista, onde o religioso foi remetido para a "esfera privada". O recente renascimento do Islão na Turquia não significa que as reformas de Atatürk afinal apenas tocaram a "superfície" da sociedade? E não existe uma contradição entre o "regresso do Islão" e o reforço dos valores democráticos?
RAGIP DURAN- A Turquia, não apenas pela sua geografia, entre o Leste e o Oeste, mas igualmente a nível cultural e pela sua história, é um país muito heterogéneo. Referiu-se ao kemalismo, a ideologia oficial fundadora da República em 1923 após seis séculos de Império otomano multinacional, multireligioso e multiétnico. Tratou-se de uma transformação muito radical e a própria natureza da identidade desta nova república é assunto que continua a ser debatido entre a intelectualidade turca. Os valores que estão de facto enraizados na população foram mais ou menos importados do estrangeiro, a democracia, liberdade, sociedade civil, cidadania.
No actual processo temos mais democracia, menos autoritarismo, mais sociedade civil, menos militarismo. A União Europeia [UE], como factor de dinâmica externa, encorajou muito e apoiou muito o que se passou nos últimos dois, três anos. E o que torna esta questão mais interessante é que as forças mais militantemente a favor da UE são essencialmente os islamistas, aqueles a que chamo de 'novos convertidos', porque é um fenómeno com cinco ou seis anos. Os islamistas eram fervorosos opositores da UE, chamavam-lhe o 'clube dos cristãos'...
Mas como explica essa alteração tão radical de posições num tão curto espaço de tempo?
Em primeiro lugar, porque agora os islamistas estão no poder. Depois, por ordem hierárquica, a Turquia necessita do reforço da democracia, do Estado de direito, da supremacia da lei. Para manterem os seus privilégios as elites políticas kemalistas, militares ou civis, impediram a sociedade civil de se mobilizar e exigir diversas reivindicações, que são também as de Bruxelas, como os critérios de Copenhaga. O poder actual, que provém do islamismo, compreendeu que era necessário mobilizar ainda mais a dinâmica externa e conciliá-la com a interna. E penso que até agora o conseguiu, porque as últimas sondagens de opinião pública confirmam que mais de 68 por cento da população turca deseja a adesão à UE.
Este processo de democratização colide desta forma com a "identidade turca" construída pelo Estado republicano kemalista e pós-kemalista de natureza autoritária, ao permitir a afirmação de povos ou de minorias religiosas até agora reprimidas e que não se reconhecem como "turcos". Recordo-me dos curdos, dos alevitas...
Ser membro efectivo da UE, ou mesmo após o início das negociações sobre a adesão, significa aceitar à partida que parte da soberania nacional será transferida para Bruxelas. Não será o Estado turco nem o Governo turco quem vão decidir sobre determinados problemas, as decisões serão tomadas em comum. Quanto às minorias devo referir que os curdos não se consideram minoritários. Mas os alevitas [uma corrente religiosa muçulmana heterodoxa com longas tradições na região] e outras minorias não apenas políticas ou étnicas mas também sexuais, o que se chama o 'terceiro sexo', são também adeptos fervorosos da UE porque sabem que o Estado-nação soberano que tudo decide, sem consultar os seus cidadãos, significa mais opressão que liberdade para todas essas minorias. Nesta nova Turquia, quando for membro efectivo da UE provavelmente dentro de 15 ou 20 anos, os diversos valores e critérios universais, europeus, vão trazer mais liberdade, mais democracia, mais conforto a todas estas minorias. Tem razão, a mentalidade do Estado turco está em vias de se alterar, sobretudo quando se desembaraçar daquela que prevaleceu das décadas de 1930 e 1940...
Como estão a reagir as Forças Armadas face a um processo que questiona directamente o seu poder e a sua tradicional influência na política?
São uma entidade muito importante na vida política interna. Por diversos motivos, incluindo a popularidade da UE entre as massas populares na Turquia, as Forças Armadas perceberam que não existia outra solução, que não tinham alternativa à UE. Porque a UE significa um projecto, não se trata de uma relação diplomática entre Ancara e Bruxelas. A actual hierarquia militar turca começa a emitir declarações que não produzia, prevendo o cenário da adesão plena. O Estado turco está a desembaraçar-se de tudo o que era dogmático, antiquado, talvez mesmo burocrático, de tudo o que era anti-democrático... Isto abre esperanças e horizontes, quando se pressente que a UE pode ser melhor que um passado assente no Estado-nação soberano.
Regressando à questão do islamismo, registaram-se diversas cumplicidades entre o Estado e grupos radicais islâmicos, que foram utilizados contra a esquerda... Ainda se vive na Turquia a herança desse período, no qual o Estado neo-kemalista e as Forças Armadas utilizaram essa estratégia?
No período designado de 'luta armada', de 'anarquia' entre 1971 e 1980, o aparelho de Estado serviu-se de certos grupúsculos islamistas e reaccionários contra os comunistas, contra a esquerda, e que de facto funcionavam como assassinos contratados. O mesmo método foi também utilizado contra a rebelião curda, através do Hezbollah. Nessa época, existia uma união de interesses entre esses grupos islamistas anti-comunistas e reaccionários de direita e os interesses do Estado, que pretendia desembaraçar-se da esquerda. Atendendo à mentalidade kemalista, que é muito laica e também muito jacobina, tal não deveria acontecer, o kemalismo deveria ter morrido naturalmente com a morte de Atatürk, em 1938. Mas infelizmente todos os governos posteriores se serviram dessa ideologia em benefício dos seus próprios interesses.
Hoje ainda existe uma corrente da esquerda nacionalista que defende o kemalismo. Mas na Turquia de hoje todas as minorias, dos anarquistas aos 'verdes', dos homossexuais aos curdos, começam a sentir-se mais livres, a definir a sua própria identidade, quando previamente tudo era reprimido porque todos deveriam ser kemalistas, bons cidadãos, quase como na Alemanha dos anos de 1930. Essa sociedade militar-jacobinista está a tornar-se numa sociedade cada vez mais civil e livre.
A ex-deputada curda Leyla Zana anunciou a formação de num novo partido pró-curdo, enquanto têm ocorrido novos incidentes armados no "Curdistão Turco"... Como perspectiva a resolução da "questão curda" na Turquia?
De 30 mortos por dia no passado, regista-se agora um morto por semana. É um grande progresso e o importante é que as duas partes, Ancara e o movimento curdo em geral, compreenderam que não é com a violência que se pode solucionar o problema. A grande página da violência está encerrada em 80 por cento, ainda é necessário algum tempo. Infelizmente, as duas partes não têm uma visão, uma perspectiva para a solução política do problema. Não existe um modelo porque é complicado, não é um problema de minorias mas um problema regional, há curdos que vivem em países vizinhos, é um problema universal. Quando o problema palestiniano estiver resolvido, penso que todos se concentrarão no problema curdo. Mas espero que a Turquia consiga entretanto resolver o problema curdo no seu território, porque seria também a resolução desse problema no Irão, Iraque e Síria.
Publicado por esta às outubro 28, 2004 03:06 PM