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outubro 30, 2004

Construção europeia atinge um novo patamar político

[Fonte: Jornal de Notícias]

Foi num cenário faustoso de inspiração renascentista, o Capitólio, no coração da Roma histórica, que os líderes europeus assinaram, ontem, a primeira Constituição da União Europeia, abrindo caminho a um novo patamar na construção de uma Europa de cariz mais político. Alargada, mas democrática e eficaz. Trata-se de um novo texto fundamental que ninguém sabe se entrará em vigor, dadas as reticências que suscita entre os estados-membros. A ratificação, que deverá estar concluída dentro de dois anos, não é certa, porque divide as opiniões públicas e as classes políticas de vários países da União Europeia. Incluindo dois pesos-pesados, como a França e o Reino Unido. Um clima de incerteza que os oradores da cerimónia preferiram iludir, por entre apelos à mobilização, para não estragar a "festa".

"Regresso a Roma"

De entre os diversos oradores da cerimónia, o espanhol Josep Borrell, presidente do Parlamento Europeu foi, talvez, quem melhor exprimiu o espírito da Constituição e o progresso que ela representa, desde a assinatura, no já longínquo ano de 1957, do Tratado de Roma, que lançou as bases para o Mercado Comum de 1987. "Eis-nos de regresso a Roma. Depois de escrevermos a história de um sucesso. De Roma a Roma. Hoje, os nossos governantes assinam mais um tratado, mas não é um tratado como os outros: distingue-se dos outros tanto pela forma, como pelo conteúdo e valor simbólico. Instituir uma Constituição para a Europa é aceitar a existência de um povo europeu, de uma Europa Política", sustentou Borrell. "Quaisquer que sejam as lacunas deste projecto, ele representa uma etapa superior na via para a criação de uma comunidade política", fez questão de sublinhar o "homem forte" do Parlamento Europeu. Acompanhados dos respectivos ministros dos Negócios Estrangeiros, os líderes assinaram , um por um, por ordem alfabética, ao som da música solene de Haendel,o Tratado Constitucional e a sua Acta final, dando o pontapé de saída para um processo que carece ainda de novos episódios (ler "Os passos seguintes"). Cerca de seis mil agentes policiais ocuparam-se da segurança do evento, que exigiu o fecho de inúmeras artérias romanas e determinou a interdição de todos os voos não autorizados, num perímetro policiado por aviões F 16, da Força Aérea italiana. A firma Maserati emprestou veículos, para o transporte de membros das delegações nacionais.

Assinatura do Tratado Constitucional Europeu

Um dia muito tranquilo para seis mil polícias. A ausência de trânsito no centro histórico e o forte aparato policial marcaram o dia da assinatura da Constituição Europeia, em Roma. Tudo correu, porém, dentro da normalidade. Esperavam-se manifestações, mas próximo da "área vermelha", bloqueada a veículos ou peões não autorizados, só alguns elementos da Cobas - Confederazione dei Comitati di Base, um dos mais importantes sindicatos autónomos de Itália - exibiam dois ou três cartazes, com frases anti-guerra e a pedir o regresso das tropas italianas no Iraque. Nas ruas, andavam cerca de seis mil polícias e havia helicópteros a sobrevoar a cidade. Os turistas observavam o aparato com curiosidade, alguns habitantes mostravam-se descontentes. No entanto, ao fim da manhã, o comandante de uma das operações de segurança da Polícia de Estado garantia que não se registou qualquer problema: "Tudo se passou na maior das regularidades. Houve alguns impedimentos, mas todos os que trabalham ou vivem na 'área vermelha' puderam passar". De facto, nos cordões de segurança era mais frequente ver carabinieri a ajudar turistas com mapas do que a resolver outra situação. "Estamos aqui para prevenção", dizia o comandante. Joana Gonçalves, 24 anos, e Luís Liz, 26 anos, do Porto, de férias em Roma, foram surpreendidos à entrada da Praça de Veneza. "Íamos visitar o Forum Romano, mas como não se pode passar vamos optar pelo Vaticano", diziam, sem se mostrarem incomodados com o bloqueio. Outra opinião tinham as inglesas Maureen e Rita: "Os nossos planos para hoje estão estragados. Tudo isto parece-nos algo ridículo. Estes polícias não estão a fazer absolutamente nada. E são bem parecidos! 'Toys for the boys'", ironizavam. Para compensar os incómodos, o município de Roma vai abrir gratuitamente os principais museus, de 2 a 6 de Novembro.

Publicado por esta às outubro 30, 2004 04:27 PM