« Construção europeia atinge um novo patamar político | Entrada | Parlamento Europeu mantém reservas quanto a comissários escolhidos por Durão »

outubro 30, 2004

Comissão de Barroso desvia as atenções

[Fonte: Jornal de Notícias]

Crise na união Nova versão da equipa pode exigir afastamento de cinco comissários Tudo depende da boa vontade dos governos envolvidos. A natureza festiva do evento não impediu alguns oradores de enviarem "recados" sobre outras questões prementes da actualidade europeia. Além das esperadas declarações de fé na vitalidade da construção europeia, foram emitidas mensagens susceptíveis de dupla leitura, remetendo de forma indirecta para a crise política na União. Foi o caso do presidente designado da Comissão. Durão Barroso, através de citações de personalidades célebres, apelou à "fraternidade europeia", celebrada por Victor Hugo. "Mais do que nunca, precisamos de perseverança, vontade sem falha e total confiança no futuro, a fim de podermos vencer os desafios que se colocam à União", disse, recordando "palavras muito actuais" de um dos pais fundadores da Europa, De Gasperi: "A construção da Europa é um problema complexo, difícil, que requer muita paciência e exige sobretudo a vontade enérgica e fé no futuro". Entre os desafios mais urgentes, está a investidura da nova equipa de comissários. À margem da assinatura da Constituição, Barroso consultou vários dos seus antigos pares do Conselho Europeu sobre a composição de uma Comissão susceptível de ser aprovada pelo Parlamento Europeu. Urge agir para debelar a crise instalada esta semana, quando o PE precipitou o adiamento da investidura da primeira versão da Comissão Barroso, sobretudo por causa da hostilidade da maioria dos eurodeputados em relação ao comissário italiano indigitado, Rocco Buttiglione, cujas convicções sobre homossexualidade e condição feminina enfureceram a Esquerda e os centristas da euroassembleia. A Imprensa italiana e europeia equaciona já os dois cenários para desfazer o impasse: a permanência de Buttiglione na Comissão, mas não com o pelouro da Justiça e Assuntos Internos, ou a sua substituição, seja pelo ministro dos Estrangeiros italiano, Franco Frattini, seja pelo actual comissário, Mário Monti. Durão Barroso prontifica-se agora a fazer o que antes recusara - remodelar a equipa. Quatro a cinco cabeças deverão rolar: as comissárias da Holanda, Neelie Kroes, Dinamarca, Mariann Fischer-Boel, e Letónia, Ingrida Udre, o húngaro Laszlo Kovacs, e, claro, o italiano. Para tal, terá de convencer os governos respectivos, que parecem renitentes em se inclinarem perante as exigências do aguerrido Parlamento. Ciente de que sem a colaboração das capitais não conseguirá pôr de pé uma equipa do agrado do PE, Durão disse, sexta-feira, esperar que "os governos e os povos da Europa" estejam "à altura dos desafios com que somos confrontados". Barroso não terá de se preocupar se pelo menos dois dos chefes de governo - o italiano e o holandês - passarem das palavras aos actos. Na assinatura da Constituição, protagonizaram ambos uma vigorosa defesa da solidariedade europeia. "O sentimento europeu faz parte da nossa história", declarou o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, para quem a Constituição "deverá ser apoiada por um compromisso renovado" de cidadãos e governos. "Temos motivos para estar optimistas e ter fé no nosso futuro comum", afirmou Jan Peter Balkenende. Mais tarde, o chefe do governo holandês destacou o apoio que Barroso recebeu em Roma dos chefes de Estado ou de governo. O visado confirmou que prosseguirá, nos próximos dias, conversações com alguns - não todos - governos e com as forças políticas, para realizar "modificações pontuais" do executivo. Declinou precisar quais, até porque ainda não fez propostas formais. O primeiro-ministro português é que se colocou abertamente ao lado de Durão Barroso na busca de uma solução. "Seria impensável que posições rígidas e egoístas prejudicassem a margem de manobra do presidente da Comissão Europeia", sustentou no final da cerimónia. Santana Lopes criticou mesmo a possibilidade de outros governos europeus não fazerem o mesmo.

Recusada oferta de apoio da extrema-direita francesa

A Frente Nacional francesa, através do deputado Jean-Claude Martinez, ofereceu a Barroso os votos da extrema-direita, para o ajudar a ver aprovada a sua equipa para a Comissão Europeia. A notícia foi avançada pelo "Le Monde", que assinala o facto de alguns comissários designados terem ameaçado demitir-se, caso isso acontecesse. Jacques Chirac chegou a comunicar a Barroso que "não aceitaria" tal cenário. Ontem, em Roma, o presidente indigitado garantiu que "nunca quereria uma Comissão apoiada apenas pela Direita e a Extrema-direita". Confirmou ter-se encontrado com Martinez e falado, na terça-feira, com o presidente francês, mas não revelou o conteúdo da conversa. E lembrou que, quando era primeiro-ministro de Portugal deu "instruções formais" ao embaixador em Paris para apoiar Chirac contra Le Pen, na segunda volta das presidenciais.

Publicado por esta às outubro 30, 2004 04:32 PM