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outubro 14, 2004
António Guterres contra a «avareza». Diluição é o perigo que o ex-primeiro-ministro vê no projecto europeu.
[Fonte: Visão]
No dia em que o Durão Barroso disse, numa entrevista ao diário francês Le Monde, que «é irrealista pensar que se vai chegar a harmonizar o imposto sobre as sociedades», António Guterres afirmou, num debate na FNAC Colombo, que «no interior da União Europeia (UE) a competição fiscal põe em risco o modelo social europeu».
O presidente da Internacional Socialista e ex-primeiro-ministro do PS, que participava, no último dia 22, no Forum de l’Info a convite da RPL-Rádio Paris Lisboa, uma iniciativa com o apoio da VISÃO, fez um diagnóstico reservado do momento actual da UE. O que ele receia não é a implosão mas a diluição do projecto europeu num mero bloco económico.
«O que está em causa não é só o modelo social europeu, mas o projecto no seu conjunto», disse, no debate conduzido por Paula Moura Pinheiro e Helena Matos, apontando o dedo à fragilidade da base demográfica e à «avareza dos responsáveis para concretizar um projecto ambicioso».
Quanto à erosão demográfica do Velho Continente, Guterres disse ser «contraditório» o facto de os europeus não quererem ter filhos, não quererem ocupar-se de tarefas menos qualificadas e não quererem imigrantes. «A Europa precisa de dezenas de milhões de imigrantes», disse, sublinhando que «não é só a economia mas a sociedade europeia que seria inviável sem os imigrantes».
E deu o exemplo do Canadá para sustentar a «necessidade de ter políticas activas de imigração para sobreviver como sociedade».
O outro ponto que, segundo Guterres, pode minar o projecto europeu é a falta de meios para a sua concretização.
«A única lógica parece ser a competição infrene para baixar os impostos», disse o presidente da Internacional Socialista.
Na raiz da deslocalização das empresas estão não só as vantagens fiscais mas também os salários mais baixos.
A jornalista Helena Matos deu o exemplo de uma fábrica da Siemens da Alemanha cujos trabalhadores aceitaram passar de um horário de trabalho de 35 para 45 horas semanais para evitar a deslocalização para a Hungria, um dos dez novos países da UE. «Há o risco de nivelar por baixo», reconheceu Guterres. Para «nivelar por cima» a resposta está na economia do conhecimento e na inclusão social, o binómio consagrado na «Estratégia de Lisboa» de que o ex-primeiro-ministro foi o principal promotor na Presidência Portuguesa da UE no primeiro semestre de 2000.
«Há um aspecto saudável na deslocalização . É desejável que empresaspossam ser transferidas para outros países à medida que se vai melhorando», disse, contudo, Guterres, considerando que «a qualificação das pessoas» é a chave para que esses processos se façam sem traumas sociais.
Publicado por jpdias às outubro 14, 2004 06:05 PM