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outubro 27, 2004

A UE Deve Parar na Turquia? Ou Antes da Turquia?

Se a União Europeia integra a Turquia, porque não a Ucrânia, a Bielorrússia, os países do Cáucaso? A questão, levantada ontem na Fundação Gulbenkian pelo norte-americano Daniel Hamilton, aponta para um futuro em que ninguém ainda se atreve sequer a pensar, numa altura em que as discussões se centram sobretudo noutra dúvida: faz sentido integrar a própria Turquia?
Embora o tema da conferência seja "As Novas Fronteiras da Europa", sintomaticamente, foi a Turquia - "questão fracturante", como sublinhou o presidente da Fundação Gulbenkian, Rui Vilar, na intervenção de abertura, e como foi evidente nas palestras seguintes - que dominou ontem a sessão da manhã da conferência de dois dias a decorrer na Fundação.
O Presidente da República, Jorge Sampaio, definiu logo à partida, e de forma muito clara, a sua posição: "A adesão da Turquia representa uma formidável oportunidade para a paz, a democracia e a prosperidade dos povos". Quanto à delicada questão da matriz judaico-cristã da civilização europeia versus o Islão turco, o Presidente considerou que estamos perante "um grave preconceito que urge ultrapassar".
Uma opinião que não é partilhada pelo eurodeputado francês Jean-Louis Bourlanges, para quem esta questão está ligada a uma ambiguidade na génese do projecto europeu e que ainda não foi resolvida. O objectivo da União é "procurar reunir os filhos de uma mesma civilização, que a loucura dos Estados separou" (uma visão que Bourlange identifica com um dos "pais fundadores", Robert Schuman); ou, pelo contrário, é um esforço para ultrapassar as diferenças com o outro e construir algo de novo (visão mais próxima de Jean Monet, o homem das organizações internacionais e da construção de pontes)?
Bourlange identifica-se, sem dúvida, com a primeira visão, mas aquilo que defende essencialmente é que a Europa deve encontrar uma resposta para este dilema. A questão é a de "saber se limitamos a UE aos que têm uma história de valores comuns", que passa pela conversão ao cristianismo e por uma "civilização baseada na separação das ordens do poder, da fé e do saber", ou se "queremos uma união baseada não na história mas em valores comuns que vamos construir".
Se a resposta for a segunda, diz o eurodeputado francês, "é possível, mas significa que não há fronteiras e que todos podem ser admitidos". Ou seja, não há razão para parar na Turquia.
Precisamente, veio dizer, na intervenção seguinte, Daniel Hamilton, da Universidade Johns Hopkins, nos EUA - não há razão para parar. Pouco sensibilizado pelo argumento cultural/civilizacional, o norte-americano mostrou-se pragmático, ao defender que a UE deve integrar os países que, tal como a Turquia, se mostrarem dispostos a mudar e a enveredar pela via da democracia e do respeito pelos Direitos Humanos. Porque não a Ucrânia? Porque não a Bielorrússia?
Hamilton alertou para os conflitos "congelados" - alguns em vias de descongelamento - que existem não muito longe das actuais fronteiras europeias. Os Balcãs (Kosovo, mas também a Macedónia), por um lado, o Cáucaso, por outro (aqui o interesse passa também pelas questões energéticas, dado ser uma região rica em petróleo e gás natural).
É na relação que estabelecerem com estas regiões que os Vinte e Cinco mostrarão se, a par do alargamento - que Hamilton considera "o maior sucesso da política externa da União" -, conseguem desenvolver um "maior horizonte estratégico".
A resposta a tudo isto passa antes de tudo, todos o disseram, pela Turquia. E, apesar de já ter sido dado o primeiro passo para a adesão, o verdadeiro debate ainda só está a começar. Ragip Duran, jornalista turco ligado à Universidade de Galatasaray, lamenta que esse debate esteja marcado por muitas ideias preconcebidas - "é muito difícil libertarmo-nos de tudo o que aprendemos nas fábulas, na escola primária". Ideias que têm muito a ver, mais uma vez, com a questão da religião. Duran não compreende, por exemplo, porque é que quando se fala da entrada da Polónia na UE se diz que são "40 milhões de polacos, e no caso turco são 70 milhões de muçulmanos".

Publicado por esta às outubro 27, 2004 05:03 PM